Câmara de Gouveia diz que relatório assume que país não estava preparado para tragédia dos incêndios

O presidente da Câmara Municipal de Gouveia, Luís Tadeu, considera que o relatório da comissão técnica independente de análise dos grandes incêndios de outubro de 2017 evidencia que o país não estava preparado para evitar as tragédias.

“O relatório só veio demonstrar o quanto, ao longo destes anos, de facto, o país não se soube preparar para esta possibilidade”, disse hoje o autarca social-democrata à agência Lusa.

Segundo Luís Tadeu, no relatório são apontadas “falhas gravíssimas por parte da estrutura de Proteção Civil nacional” que se verificaram “cabal e plenamente no terreno naqueles fatídicos dias de 15 e 16 de outubro”.

Essas falhas “já antes se verificavam de alguma forma, também noutros incêndios” que não tiveram a dimensão destes, mas que “já se notava alguma situação de alguma descoordenação”, disse à Lusa.

“Este relatório, de alguma forma, vem pôr o problema nos pontos principais”, admite ainda o presidente do município de Gouveia, na Serra da Estrela, distrito da Guarda.

Na opinião de Luís Tadeu, Portugal também não se preparou “em termos daquilo que devia ser a prevenção, em termos de limpeza de matos, em termos de limpeza de terrenos”.

O concelho de Gouveia foi atingido pelos incêndios, mas o autarca sublinha que a situação verificada “não foi por falta de informação”, pois “todos os anos” têm sido feitas ações de sensibilização com a população, com a colaboração da GNR e da PSP e das corporações de bombeiros locais.

Luís Tadeu diz ainda ter dúvidas sobre se as medidas que estão a ser tomadas são as mais adequadas, “não só na sua forma”, como “nos seus termos e no tempo”, temendo que se tenha começado “outra vez, um bocado, a ‘empurrar com a barriga'”.

“Hoje em dia, muitos concelhos têm imensas áreas ardidas e, portanto, dificilmente vão ter algum incêndio com alguma grande dimensão”, observou.

O autarca de Gouveia referiu também que nos concelhos do interior existe o “problema grave” de muitos terrenos pertencerem a heranças e de os herdeiros residirem fora da região e do país e “isso tem provocado dificuldades de acesso à informação sobre quem são os proprietários”.

Esta situação “vai originar problemas” e “vai conduzir a despesas” que vão ser assumidas pelos municípios, alerta o responsável.

A comissão técnica independente criada para analisar os grandes incêndios rurais de 2017 entregou no dia 20 de março no parlamento o relatório dos fogos de outubro (dias 14, 15 e 16), envolvendo oito distritos das regiões Centro (Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu) e Norte (Braga e Viana do Castelo).

Falhas na programação do socorro e na rede de comunicações e um “dramático abandono” das populações foram identificados pela comissão técnica, que admite, contudo, uma conjugação singular de fatores meteorológicos.

Estes incêndios provocaram a morte a 49 pessoas.




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