Morreu o ensaísta e filósofo Eduardo Loureço

O filósofo e ensaísta português tinha 97 anos. Nasceu em 1923 em São Pedro de Rio Seco, concelho de Almeida.

Considerado um dos mais prestigiados intelectuais europeus e uma das mais emblemáticas figuras do século XX português, Eduardo Lourenço deixa uma obra de vulto e um legado que o perpetuará na história da Cultura Portuguesa.

O filósofo e ensaísta português tinha 97 anos. Nasceu em 1923 em São Pedro de Rio Seco, concelho de Almeida. Atualmente Eduardo Loureço era Conselheiro de Estado.


O Centro de Estudos Ibéricos é uma das suas criações e a Biblioteca Municipal da Guarda tem-no como patrono.

A bibliografia de Eduardo Lourenço soma perto de 40 títulos, todos eles detentores de “um olhar diferente e inquietante” sobre a realidade, num percurso iniciado em 1949, com a publicação de “Heterodoxia”, em Coimbra.

A obra, com origem na tese de licenciatura do autor, deixava entrever, desde logo, “o grande intérprete da identidade portuguesa”, e permitia reconhecer em Eduardo Lourenço, aos 26 anos, uma reflexão afastada das linhas ideológicas dominantes da época: o ultraconservadorismo em que se alicerçavam a ditadura e o catolicismo que a apoiava, e o marxismo, pouco consonante com a visão plural do pensador.

Em plena ditadura, Eduardo Lourenço abria a obra afirmando que “o mundo da cultura portuguesa arrasta há quatro séculos uma existência crepuscular”, defendia o “Espírito da Heterodoxia” — o questionamento das ideologias, das doutrinas –, como algo intrínseco ao humano, e assumia-o como contestação das principais ortodoxias políticas do pós-guerra. Falava sobre a “Europa ou o diálogo que nos falta” e do “Segredo de Hegel ou o Equívoco da Dialéctica”.

Demonstrava, logo à partida, “ser portador de um olhar sempre diferente e inquietante sobre os problemas”, como escreveu o ensaísta Eduardo Prado Coelho, em 1984, sublinhando o espanto causado pela “pluralidade de interesses, a imensidão de uma cultura que não se entrincheira em redutos de erudição, o jogo ilimitado das referências”.

“Todos os meus livros são de circunstância ou, antes, são-me impostos”, disse Eduardo Lourenço em 1998, numa entrevista ao Diário de Notícias, citada pelo Centro Nacional de Cultura (CNC), na página que lhe dedica. “De resto, já só escrevo de empreitada (…), senão não escrevia nada. Nunca teria nenhum destes textos. Nunca me quis servir dos autores”, afirmou.

Havia, porém, um reconhecimento de experiência vivida na “obra alheia” que o fascinava. “Encontramos os autores com este sentimento de que fomos roubados, de que fomos já vividos, de que fomos consumidos anteriormente. Por conseguinte, experimentamos um sentimento de fascínio e, ao mesmo tempo, quase de terror diante de gente que nos parece tão parecida [com o que somos]”, disse Eduardo Lourenço, citado pelo CNC.

O segundo título do ensaísta, “O Desespero Humanista na Obra de Miguel Torga” (Coimbra, 1955), surgiu igualmente em edição de autor, seis anos depois do primeiro livro e 12 antes de “Heterodoxia II” (Coimbra, 1967), no qual analisou a “Situação do Existencialismo”, Albert Camus e a sua “dialética trágica”, “Michel Foucault ou o Fim do Humanismo”.

Foi em “Heterodoxia II” que abordou o pensamento de Soren Kierkegaard, que descreveu como “espião de Deus” (autor que viria a dominar a edição mais tardia de “Ocasionais”, Regra do Jogo, 1984), e em que analisou desassombradamente “Ideologia e Dogmatismo”.

Em 1968, “Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista” encontra uma editora, a Ulisseia, e traduz o trabalho de reflexão sobre o movimento literário e os seus autores, a quem Lourenço chamou “geração da utopia”.

Nos anos de 1950, e na década de 1960, quando já se fixara em França, colaborou com as revistas Árvore e O Tempo e o Modo através de textos que, na sua maioria, viriam a ser reunidos em “O Canto do Signo – Existência e Literatura (1957-1993)” (Presença, 1994).

“Fernando Pessoa Revisitado. Leitura Estruturante do Drama em Gente” (Editorial Inova, 1973) transformou-se num clássico da crítica pessoana, abrindo caminho aos modelos atuais de interpretação da obra do poeta.

“Tempo e Poesia – À Volta da Literatura” (Editorial Inova, 1973) reforçou a abordagem crítica, os modelos de leitura e pesquisa de preocupação do autor.

Os caminhos abertos em Abril de 1974 e os processos que a queda da ditadura desencadeou foram pensados em “Os Militares e o Poder” (Arcádia, 1975), obra que se transformou num dos pilares de “Gestos e Fragmentos” (1982), ‘filme-ensaio’ de Alberto Seixas Santos sobre a revolução, vista após o chamado “Verão Quente” e o 25 de Novembro.

Em “Situação Africana e Consciência Nacional” (Génese, 1976), abordou diferentes rostos de um “Retrato (póstumo) do nosso colonialismo inocente”, incluindo reflexões que remontavam ao início da guerra colonial (1961/1963), e conservadas inéditas, durante a ditadura.

São também do pós-Abril duas das mais referenciadas obras de Eduardo Lourenço: “O Fascismo nunca Existiu” (1976) e “O Labirinto da Saudade – Psicanálise Mítica do Destino Português” (1978). Surgiram ambas originalmente nas Publicações D. Quixote, e justificaram o ensaísta como “voz fundamental” da identidade portuguesa e o seu “grande intérprete”, como o definiram, respetivamente, a historiadora Irene Flunser Pimentel e o gestor Guilherme d’Oliveira Martins, em 2011, quando lhe foi atribuído o Prémio Pessoa.

O primeiro livro (“O Fascismo Nunca Existiu”) congrega textos anteriores a 1974, como “A nova república deve nascer adulta” e “Brasil, caução do colonialismo português”, e outros posteriores ao 25 de Abril, como “Carta aberta ao Português que ainda não foi a Belém”, “Quantas políticas africanas temos nós?” e “‘Requiem’ por um Império que nunca existiu”.

No prefácio a “Corpo Delito na Sala de Espelhos” (1980), de José Cardoso Pires, que coloca a ação numa câmara de tortura da PIDE, Eduardo Lourenço sintetizaria de novo a perspetiva: “Sob o desfile unanimista do 1.º de Maio de 1974, quem tivesse colado o ouvido ao asfalto, teria surpreendido um silêncio singular (…) com 50 anos de espessura”.

“O Labirinto da Saudade” entra diretamente na “psicanálise mítica do destino português”, na necessidade de “Repensar Portugal”, na “literatura como interpretação” do país e na “emigração como mito”, entre os “mitos da emigração”.

“Somos um povo de pobres, com mentalidade de ricos”, afirmou no “labirinto” que adensou com a evocação de Camões no presente.

“O Complexo de Marx ou o Fim do Desafio Português” (Publicações D. Quixote, 1979) impôs o debate que poucos ousavam na época, com textos de análise e crítica sobre “Repensar a Lusofonia”, “o euro-socialismo”, “o triunfo da social-democracia”, “a audácia de Sá Carneiro ou a fraqueza da Revolução” e “a Revolução à deriva”.

Na década de 1980, os temas culturais retomaram a dianteira: em “O Espelho Imaginário – Pintura, Anti-Pintura, Não-Pintura” (Imprensa Nacional, 1981), foi de Maria Helena Vieira da Silva, Noronha da Costa, Cruz Filipe ou Paul Klee, a Velasquez e Tintoretto; e em “Poesia e Metafísica” (Sá da Costa, 1983), congregou Camões, Antero e Pessoa.

“Fernando, Rei da Nossa Baviera” (Imprensa Nacional, 1986) acentuou a abordagem crítica do escritor. “A fortuna crítica de Fernando Pessoa”, “Pessoa ou ‘le Moi comme fiction’”, “O Livro do Desassossego”, como “texto suicida” ou não, e as aproximações a Kierkegaard são textos que continuam a fazer história nos estudos pessoanos.

A revisão de “Heterodoxia I e II” (Assírio & Alvim, 1987) trouxe novo prólogo, “Escrita e Morte”, feito numa época de afirmação do neoliberalismo, e antecedeu a publicação de “Nós e a Europa ou as Duas Razões” (Imprensa Nacional, 1988), obra surgida na sequência da adesão de Portugal à Comunidade Europeia (1986), coincidente com a atribuição do Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon ao pensador, e desde então revista, aumentada e complementada também com “A Europa Desencantada – Para uma Mitologia Europeia” (Visão, 1994).

“Cultura e Política na Época Marcelista” (Cosmos, 1996), sob a forma de uma longa entrevista a Lourenço, feita pelo jornalista e académico Mário Mesquita, permite revisitar a história da alegada e nunca concretizada abertura da ditadura, na última fase, após a queda de Oliveira Salazar (1968-1974).

A obra antecede “Nós Como Futuro” (Assírio & Alvim, 1997), ensaio para os Cadernos do Pavilhão de Portugal na Expo’98, em que Lourenço estabeleceu referentes distintos para o “passado”, e “O Esplendor do Caos” (Gradiva, 1998), em que abordou “a cultura na era da mundialização” e já a sua “ressaca”.

Nesta altura (1997-1998), a Gradiva assumiu a publicação das obras de Eduardo Lourenço, que tem em curso, dos primeiros aos novos títulos. Aqui surgiram, em 1999, “‘Portugal como Destino’ seguido de ‘Mitologia da Saudade'”, uma “dramaturgia cultural portuguesa”, e “‘A Nau de Ícaro’ seguido de ‘Imagem e Miragem da Lusofonia'”, sobre o “fim da emigração”, como tradicionalmente conhecida.

Antero de Quental (“A Noite Intacta”, Centro de Estudos Anterianos, 2000) e Gil Vicente (“Destroços – O Gibão de Mestre Gil e Outros Ensaios”, Gradiva, 2000) foram pretextos para Eduardo Lourenço continuar a pensar a cultura portuguesa, antes de nova reunião de ensaios pessoanos em “O Lugar do Anjo” (Gradiva, 2004).

Em “A Morte de Colombo – Metamorfose e Fim do Ocidente como Mito” (Gradiva, 2005) abordou processos históricos abertos pelos descobrimentos e suas consequências, até à atualidade, para uma visão de conjunto do “Ocidente e da sua deriva final”.

O título “As Saias de Elvira e Outros Ensaios” (Gradiva, 2006) causou estranheza, na crítica e na sua bibliografia, mas era justificado pelos textos dedicados a vários escritores e à sua abordagem de costumes, em particular Eça de Queirós, mas também Camilo e Almeida Garrett.

Surgiram depois “Breves Ensaios sobre Eugénio de Andrade”, em “Paraíso sem Mediação” (Asa, 2007), e os ensaios políticos de “A Esquerda na Encruzilhada ou Fora da História?” (Gradiva, 2009).

“Pequena Mitologia Europeia”, ensaio escrito para Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012, foi publicado em 2011, quando a Universidade de Évora e a Fundação Calouste Gulbenkian encetaram o projeto de publicação da “Obra Completa de Eduardo Lourenço”.

O empreendimento de 38 volumes, que vai no 9.º (“Pessoa Revisitado. Crítica Pessoana I (1949 – 1982)”, publicado em junho de 2020), abriu com “Heterodoxias”, reunião dos ensaios iniciais, a que Eduardo Lourenço juntou textos dispersos e inéditos, da mesma época, e ainda um novo capítulo, “Heterodoxia III”, com material proveniente do seu acervo, em que, entre outros autores, fala do seu mestre em Coimbra, o ensaísta, professor e historiador Joaquim de Carvalho (1892-1958).

Foi também em 2011 que Eduardo Lourenço recebeu o Prémio Pessoa. Era o ano da crise, da intervenção da ‘troika’. Para o júri, a entrega do prémio a “um dos mais lúcidos” pensadores existentes impôs-se, pelo “momento crítico” que Portugal atravessava.

No percurso de Lourenço, seguiu-se a publicação de “Tempo da Música, Música do Tempo” (Gradiva, 2012), conjunto de ensaios inéditos que remontam à década de 1950, sobre outra paixão menos pública do ensaísta, que abarca nomes como Bach e Beethoven, Chopin, Hindemith e Prokofiev, Miles Davis ou mesmo Amália.

“De todas as artes, a que revela o que a Humanidade é de mais profundo e absoluto é a música”, disse em 2017, em entrevista ao jornal Público.

Em “Do Colonialismo como Nosso Impensado” (Gradiva, 2014) tratou contradições da mitologia colonialista, e em “Do Brasil, Fascínio e Miragem” (Gradiva, 2015), abordou “o lugar e o espaço-tempo” do país, e autores como Gilberto Freyre, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Glauber Rocha e uma possível “psicanálise das relações” Portugal/Brasil.

Em 2015, saiu “Em Diálogo com Eduardo Lourenço” (Gradiva), livro em tom coloquial, sobre “o que merece ser pensado e mesmo o que não merece ser pensado”, resultado de uma conversa com a professora Ana Nascimento Piedade, da comissão científica do Congresso Internacional “Eduardo Lourenço, 85 anos” (Gulbenkian, 2008).

O livro “Crónicas quase Marcianas” (Gradiva, 2016) reúne textos de atualidade, que publicou na revista Visão, e “Da Pintura” (Gradiva, 2017) apresenta ensaios, quase todos inéditos, escritos entre 1946 e 2013, abordando estética, exposições e pintores como Almada, Júlio Pomar e Picasso.

“Na verdade, falo de mim em todos os textos”, disse Eduardo Lourenço sobre a sua obra, citado pelo CNC, nas páginas que lhe dedica ‘online’. “Cada um dos assuntos por que me interesso daria para ocupar várias pessoas durante toda a vida. [Mas como] não possuo vocação heteronímica, tenho procurado encontrar um nexo entre as minhas diversas abordagens da realidade. No fundo, é a procura de um só tema. E, de facto, se virmos bem, o fio condutor do que venho fazendo, e procuro ainda fazer, é uma reflexão constante sobre o Tempo. Ou melhor, sobre a temporalidade”, a passagem do tempo e o que continuamente lhe diz respeito.

Quando fez 95 anos, Eduardo Lourenço confessou, em entrevista à Lusa, que era “dificil assumir” o aniversário, porque sabia que era “o princípio do fim”, mas que não o encarava “como uma coisa trágica”, porque “todos estamos confrontados com essa exigência”.

“A tragédia já é, em si, nós não podermos escapar àquilo que nos espera, seria uma injustiça para todas as outras pessoas, que eram os nossos e que já morreram, que nós não fossemos capazes de suportar aquilo que eles suportaram quando chegou o fim deles”, afirmou. “É ir para a morte como se todos aqueles que nos conheceram e nós amámos estivessem connosco”.



Conteúdo Recomendado