Labirintos inventados por Cruzeiro Seixas expostos no Museu do Côa

Para o presidente da Fundação Côa Parque, Cruzeiro Seixas é um artista fundamental do Surrealismo português, que mostra a riqueza e o caráter “único” deste movimento artístico e cultural do século XX.

A exposição “Nos Labirintos que Inventei”, da autoria do artista português Cruzeiro Seixas, um dos precursores do movimento surrealista em Portugal, está patente no Museu do Côa, em Foz Côa, até ao próximo dia 30 de junho.

“Esta exposição ambicionou reunir um conjunto representativo de vários monumentos da criação do mestre surrealista, desafiando o público a embarcar numa viagem de descoberta e de sonho”, disse à Lusa a comissária da exposição, Alexandra Silvano.

Cruzeiro Seixas, 98 anos, soma mais de sete décadas de produção artística, entre os primeiros momentos do Grupo Surrealista de Lisboa e a sua exposição inaugural, em 1949, e um percurso que remonta à infância, em que desenhava os seus próprios brinquedos.

“Os meus pais não tinham dinheiro para me comprar brinquedos”, disse à Lusa, recordando que, por isso, começou a desenhar. Cruzeiro Seixas lembra que também foi um criador sem atelier. “A maioria dos meus trabalhos foi feita dentro da gaveta dos meus empregos”, confessou.

A comissária Alexandra Silvano, por seu lado, adiantou à Lusa que, na exposição no Museu do Côa, além de pinturas, desenhos e objetos, estão também expostos quatro ‘cadavre-exquis’, que Cruzeiros Seixas realizou com outros artistas, num “exercício surpreendente” de imaginação coletiva.

“O ‘cadavre-exquis’ é um jogo adotado pelos surrealistas que consiste na realização de um desenho ou texto coletivo, usando a imaginação e o inconsciente”, explicou Alexandra Silvano.

O Museu do Côa, no distrito da Guarda, tem patentes cerca de quatro dezenas de peças de Cruzeiro Seixas, que, pela primeira vez, estão expostas na região Trás-os-Montes e Alto Douro.

“Esta exposição no Museu do Côa é também uma chamada de atenção para as pessoas, para um movimento cultural tido como revolucionário na sua época como é o Surrealismo, uma corrente que abarca áreas, tais com a pintura, a poesia, o cinema, entre outras”, vincou a comissária da exposição.

Por outro lado, o Museu do Côa é tido como um espaço capaz de “canalizar” para o público um movimento cultural importante, como o surrealismo, e do qual “pouca gente fala”.

“Os jovens, dada a configuração da exposição, têm aqui a oportunidade de procurar, no seu interior, o imaginário e o sonho, que são importantes para o dia-a-dia de cada pessoa”, enfatizou Alexandra Silvano.

Cruzeiro Seixas é, com a escultora Isabel Meyrelles (1929), um dos últimos representantes vivos do surrealismo português, “com um trabalho vasto”, no campo do desenho, da pintura, mas também da poesia e dos objetos, da escultura.

O autor nunca aceitou a designação de “artista” por lhe parecer demasiado restritiva, assim, sugere, a interpretação da sua obra “onde por certo tudo está expresso”.

“A arte é uma palavra que me calha, realmente, muito mal. Eu não tenho nada a ver com arte, nem com artistas. Eu fui um ‘tipo’ que estive sempre empregado toda vida e nunca tive atelier. O meu trabalho foi sempre feito em momento vagos e respeitava [as obras] enquanto as fazia”, explicou em entrevista à Agência Lusa.

Cruzeiro Seixas disse no decurso da sua conversa que não sabe a quantidade das obras que elaborou, já que nunca elaborou nenhuma listagem.

“A maioria dos meus trabalhos foi feita dentro da gaveta dos meus empregos. Empregos esses que nada tinham a ver com aquilo a que se chama arte”, explicou o autor de “Homenagem à realidade”, de 1972.

Cruzeiro Seixas disse ainda que vender as suas obras, para si, é “repugnante”, já que considera que quem vende é o merceeiro, sapateiro ou o homem do talho.

“Eu não tenho nenhuma dessas profissões porque não tenho jeito”, ironizou.

Cruzeiro Seixas nasceu em 1920, e desde cedo demonstrou vocação para as artes plásticas.

“Os meus pais não tinham dinheiro para me comprar brinquedos. De maneira que, quando eu comecei a querer ter brinquedos, a minha mãe deu-me um papel e um lápis e disse-me para eu fazer os meus próprios brinquedos. Então, comecei a fazer uns rabiscos em papel, até chegar aos retratos de família”, contou à Lusa o mestre surrealista.

Frequentou a Escola António Arroio, onde conheceu Marcelino Vespeira, Júlio Pomar e Mário Cesariny, a quem se aliou, na cisão do Movimento Surrealista Português, para dar origem ao Grupo Surrealista de Lisboa, com artistas como António Maria Lisboa, Carlos Calvet, Mário-Henrique Leiria e Pedro Oom, em finais dos anos de 1940.

Para o presidente da Fundação Côa Parque, Cruzeiro Seixas é um artista fundamental do Surrealismo português, que mostra a riqueza e o caráter “único” deste movimento artístico e cultural do século XX.

Depois dos “labirintos” que Cruzeiro Seixas inventou, patentes no Museu do Côa, será inauguada a retrospetiva “Ao longo do longo caminho”, no próximo dia 29, na Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão, detentora de grande parte do acervo do “representante vivo do Surrealismo em Portugal”, que este ano completa 99 anos.




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