Fábrica de confeções fechou em Vila Franca das Naves

Preços “miseráveis” pagos por grandes cadeias são um dos motivos que levaram ao encerramento da Ana & Raquel, que deixa 40 funcionárias no desemprego .

Algumas das cerca de 40 funcionárias da fábrica Ana & Raquel – Corte, acabamentos e embalagem de confeções, não escondem que foram apanhadas de surpresa com a notícia do encerramento da unidade de Vila Franca das Naves, concretizado na última sexta-feira. O sócio-gerente e fundador da empresa garante que não havia outra alternativa e que só a sua «teimosia» impediu que o fecho não tivesse ocorrido há mais tempo, pois a crise fez com que as grandes cadeias não aumentassem durante anos os valores pagos por cada peça de vestuário.

Uma das funcionárias revelou ao jornal O INTERIOR ter sido informada, conjuntamente com as restantes colegas, da decisão de encerramento da fábrica no dia 21 de novembro, precisamente uma semana antes do fecho. A trabalhadora, que preferiu não ser identificada, diz que «sabíamos que as coisas não andavam bem, mas nunca pensámos que fosse fechar assim de repente, até porque ia havendo trabalho». A operária adianta que tem cinco meses de salário e sete subsídios por receber, mostrando-se «preocupada» quanto ao seu futuro e confessa que ainda está «à toa» com o despedimento da empresa que serviu durante perto de 20 anos. Outra colega também confirmou que tinha «muitos» salários em atraso e manifestou a sua «preocupação» com a situação de desempregada, uma vez que «com a idade que tenho ainda é cedo para a reforma e tarde para arranjar emprego».

Contactado pelo jornal O INTERIOR, o sócio-gerente da empresa reconhece que havia «ordenados em atraso, mas não é por não se ter pago junho ou agosto. São coisas que já vêm de há três e quatro anos. Iam-se suportando as despesas com outras coisas que fomos fazendo para Angola e entrou algum dinheiro, mas agora chegou-se a uma fase em que não havia solução possível». Carlos Travassos admite também que a empresa criada com a atual designação em 2000, mas que sucedeu a outra que surgiu em 1988, tinha dívidas à Segurança Social: «Quando começa a haver problemas não vale a pena estar a chover no molhado… Se a perspetiva fosse a de passarmos a ter um trabalho rentável para suportar todas as despesas iríamos para a frente, mas como a perspetiva era ruim não valia a pena estarmos a insistir e como já existem problemas com a Segurança Social, não vamos continuar a aumentá-los», declarou o empresário. A Ana & Raquel trabalhou durante cerca de sete anos para a espanhola Zara e Carlos Travassos dá o exemplo de uma peça que, «no princípio era paga a 3,80 euros/4 euros, e ao fim dos sete anos os valores eram os mesmos, com a agravante de que exigiam mais qualidade».

Nessas circunstâncias, é «muito difícil para todas as empresas que estão em sistema de sub-contratação porque chegamos ao final do mês e não temos a área comercial». O empresário garante que uma das razões que levou ao fecho da fábrica foi mesmo o «pouco dinheiro pago pelo trabalho feito» e que algumas empresas pagavam mesmo «preços miseráveis»: «Na última encomenda que fizemos perdíamos 700 euros por dia, isto durante 12 dias e, a partir daí, eu disse que não vou fazer mais. Não podia continuar neste ritmo e adivinha-se outro trabalho a seguir muito parecido», relata. O empresário revela que a situação «já vem de algum tempo e só funcionou até agora por um bocado de teimosia, a ver se isto se salvava, mas infelizmente não deu», lamenta Carlos Travassos, segundo o qual «chegou-se a uma fase em que produzíamos e chegávamos ao final do mês sem dinheiro para ordenados». Outro problema que fez «mossa» na empresa aconteceu em agosto de 2007, quando a fábrica criada em Pinhel para dar resposta às solicitações da Zara ardeu três semanas depois da sua abertura e forçou o seu encerramento. Entretanto, as encomendas da multinacional espanhola de vestuário também diminuíram «drasticamente», tanto que a Ana & Raquel já não trabalha para aquela marca há cerca de dois anos. «Ultimamente, as suas encomendas eram de 1.000 a 1.500 peças e chegava a ir à Corunha levar 500 camisas, o que não justificava continuar», refere o empresário, lembrando que no início havia carregamentos de 10 mil peças.




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