Um milhão de euros, um astrofísico português e um projeto europeu para o espaço

Jovem figueirense, Pedro Russo acaba de receber mais financiamento europeu, do programa Horizonte 2020, para prosseguir este caminho.

Na sua viagem pelo espaço, Vénus ia passar, a 5 de junho de 2012, na frente do Sol – aquele pontinho negro sobre a rodela amarela do Sol que vimos nas imagens, lembram-se? -,e Timor-Leste era um dos sítios no mundo onde se podia observar em toda a plenitude esse trânsito de Vénus – assim se chama o fenómeno.

Pedro Russo, natural de Figueira de Castelo Rodrigo, coordenador internacional do programa Universe Awareness (UnAwe), que então decorria, para a divulgação da astronomia junto dos miúdos dos 4 aos 10 anos, com um financiamento de dois milhões euros da União Europeia, não teve dúvidas. Aquela era a oportunidade de fazer «a primeira sessão astronómica de sempre em Díli», e lá foi ele, rumo a Timor, carregado de telescópios e bagagens, com a sua equipa do Observatório Astronómico da Universidade de Leiden, na Holanda, onde está sediado desde 2011.

Foi um momento marcante. As observações fizeram-se, com as crianças das escolas e a população que se lhes quis juntar, e a equipa aproveitou para organizar palestras e ações de formação para professores, numa catadupa de atividades que envolveram perto de cinco mil pessoas e geraram muito entusiasmo. Mas o que na altura mais fascinou Pedro Russo foi a curiosidade dos pequenos.

Na esteira desse trabalho, que já leva mais de uma década, a equipa de Pedro Russo ganhou agora mais um milhão de euros do programa europeu Horizonte 2020 para prosseguir atividades com um novo projeto, o Space EU, em que participam onze países, incluindo Portugal. O tema é o espaço. O espaço como futura oportunidade profissional para os jovens estudantes de hoje, como inspiração para descoberta e desafio do conhecimento, ou como inspiração para as artes. Pedro Russo é, mais uma vez, o coordenador.

 

Uma ponte divertida para a matemática e a física

Na última década, foram muitas as experiências, e são muitas as boas memórias que elas deixaram ao astrofísico português. Díli, em 2012, claro, mas houve muitos outros momentos marcantes. Em 2015, por exemplo, foi a alegria de um prémio para o kit O Universo numa Caixa, um dos recursos educativos criados no âmbito do UnAwe. A caixa, onde cabe o universo, com os seus modelos e maquetas de planetas à escala, com fotos e materiais para pintar, um livro ilustrado e instruções detalhadas para pôr tudo a funcionar e mobilizar atividades com os alunos, foi produzida em série e distribuída por mais de novecentas escolas de todo o mundo, e continua hoje a ser utilizada. Em 2015, a Scientix – Rede Europeia da Educação para a Ciência atribuiu-lhe o prémio Melhor Recurso para Educação em Ciência. Foi uma vitória.

Outra: em 2017, a 4 de junho, a Mongólia lançou o seu primeiro satélite, um microssatélite chamado Mazaalai, o nome de um urso do Gobi e mascote do país, que nasceu de um projeto da sua universidade nacional. Pois o Mazaalai foi desenvolvido por uma equipa de jovens estudantes de doutoramento da Mongólia, «que iniciaram as suas atividades em astronomia e ciências do espaço com o Universe Awareness», lembra Pedro Russo.

Ao UnAwe sucedeu, em 2015, o Space Awareness, também financiado com dois milhões de euros para três anos, pelo Horizonte 2020. «Com esses dois projetos conseguimos mostrar que a ciência e a tecnologia, que parecem muito afastadas do dia-a-dia e do imaginário infantil, são afinal fáceis para trabalhar com as crianças», explica Pedro Russo. «Elas ficam fascinadas desde muito cedo com os temas do espaço e da astronomia, como os buracos negros, a vida extraterrestre, e por aí fora, e essa é uma boa ponte para se interessarem pela ciência, o que as leva depois a estudar a física e a matemática.»

Nos últimos três anos, com o segundo projeto, a equipa não só produziu e otimizou novos materiais educativos como redobrou as atividades para alunos e professores, que envolveram mais de 230 mil pessoas em 68 países.
«Fizemos formações para sete mil professores que foram muito concorridas», recorda Pedro Russo. «Muitas vezes não tínhamos vagas e tivemos de fazer mais sessões.» Os materiais então criados «são hoje usados nas escolas por toda a Europa», garante o astrofísico. «O nosso trabalho mostra que a astronomia e o espaço podem e devem ser usados em ambiente de sala de aula», sublinha. E é nessa linha que surge agora o Space EU.

Com o novo projeto, que está a arrancar e vai durar dois anos, a equipa quer ir mais longe. Não se trata já de criar materiais educativos, isso está feito, mas de aprofundar ideias, chegar a mais jovens, «como os das comunidades emigrantes, que têm menos oportunidades de contacto com a ciência e a tecnologia», e abrir novos horizontes onde o espaço toca outras áreas, como as artes – as imagens digitais ou a música eletrónica. Uma das ações de fundo do Space EU será a de trabalhar com os ministérios e as direções de educação nos vários países, para que o espaço passe a integrar formalmente os currículos escolares. «A prazo, isso terá um enorme impacto na aprendizagem da ciência e na própria sociedade. Se houver mais jovens a seguir ciências e tecnologia, isso refletir-se-á numa sociedade mais tecnológica e em novas oportunidades de carreiras profissionais para os jovens europeus», defende. Outra ideia é desafiar alguns jovens youtubers e instagramersna Europa, Portugal incluído, com mais influência nas redes sociais, a tornarem-se embaixadores destes temas. «Estamos agora a identificá-los e vamos levá-los a visitar os centros espaciais na Europa.»

Parceiro do projeto, o Ciência Viva vai contribuir com a sua experiência já bem consolidada em atividades científicas para os jovens, nomeadamente no encontro entre estudantes e profissionais do setor do espaço que o Ciência Viva já faz por cá de forma sistemática desde 2014, através do ESERO, programa em parceria com a ESA, a Agência Espacial Europeia. «Vamos apoiar a generalização da nossa experiência nesta área ao resto da Europa», adianta Ana Noronha, que coordena as atividades ESERO no Ciência Viva.

Um dos objetivos centrais do Space EU é criar as condições certas para que mais jovens europeus a breve prazo queiram seguir profissões no setor do espaço, nas suas várias dimensões. Daqui a dois anos, “queremos poder dizer, por exemplo, que estamos a criar condições para que no futuro a representação das mulheres no sector espacial seja muito maior, ou que os jovens que não têm tido acesso à ciência e tecnologia percebam que podem fazê-lo e estejam a seguir carreiras nessas áreas”, antecipa Pedro Russo. “Podemos explorar o espaço, nós todos, europeus, em conjunto, e não apenas uma minoria”, defende. Afinal, é essa a visão de fundo do Space EU.




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