Plano 2020/2030: ‘Clusters’ da floresta à biomédica propostos para desenvolver interior

O plano propõe apostar, em alguns municípios específicos ou reunindo diferentes cidades e distritos, em ‘clusters’ que permitam às economias locais ganhar escala.

O Plano de Recuperação Económica e Social propõe um plano de investimento direcionado para o interior que prevê a criação de ‘clusters’ regionais em várias áreas, da floresta às ciências biomédicas, numa lógica de “descentralizar o país”.

Uma versão preliminar do documento, elaborado pelo consultor do Governo António Costa Silva no âmbito da pandemia da covid-19 e a que a Lusa teve acesso, atribui à coesão do território, à agricultura e à floresta um papel fundamental para “mobilizar o interior do país” e “contribuir para a construção de uma economia mais justa, equilibrada e inclusiva”.

Tal como noutros documentos de gestão do território das últimas décadas, é reconhecido que há um desafio significativo ao nível da estrutura da propriedade, “extremamente fragmentada”, e da conversão de paisagens de forma a melhorar a vida das comunidades locais e reduzir riscos como os dos incêndios rurais.

“O que a pandemia nos mostra é que não podemos menosprezar riscos. O que a ciência nos diz é que o risco das alterações climáticas é real e já se faz sentir”, destaca o documento, defendendo que o “novo dinamismo” revelado hoje pelo interior deve ser reforçado com um vasto plano de investimento na ciência, na tecnologia, no conhecimento e nos recursos humanos.

“É preciso descentralizar o crescimento e descentralizar o país”, acrescenta.

O plano propõe apostar, em alguns municípios específicos ou reunindo diferentes cidades e distritos, em ‘clusters’ que permitam às economias locais ganhar escala e dinamizar todo o ciclo económico, aproveitando projetos já em desenvolvimento, como no caso de Bragança, Castelo Branco e Évora, para onde se preconiza “uma rede para a valorização das culturas agrícolas, identificação sistemática de pragas e doenças de cultuais agrícolas e florestais, e investigação dos mecanismos de transmissão de infeções e da interação homem-animal na propagação de vírus”.

Já o Fundão (distrito de Castelo Branco), onde estão hoje instaladas várias empresas do setor informático, “pode servir de âncora a um grande projeto digital” que envolva a ligação a outras cidades portuguesas e espanholas, e Viseu pode afirmar-se como cidade inteligente, “paradigma da cidade do futuro”, e “vender esse conhecimento nos mercados europeu e global”, aproveitando a aposta que tem feito na mobilidade inteligente ou na transição energética.

Em Castelo Branco e na Covilhã, no mesmo distrito, a proposta é consolidar o polo de inovação biomédica e aumentar a capacidade já instalada, com a crescente associação de sistemas de saúde e projetos empresariais; em Elvas destacam-se as “condições para construir um centro de desenvolvimento, promoção e valorização de novas culturas e produtos naturais para o mercado nacional e europeu”; e Montesinho, no distrito de Bragança, surge como o palco de um “projeto sustentável de valorização dos recursos naturais, promoção de novas cultuas e produtos naturais”, inclusive com o estudo das alterações climáticas.

O plano destaca ainda um possível projeto-âncora no Vale do Côa (como “grande polo de valorização da paisagem e do território”, com uma aposta no turismo de natureza, o estudo das alterações climáticas e o desenvolvimento de processos para melhorar a qualidade da água e dos solos) e um ‘cluster’ de águas termais que agregue locais como Chaves, Vidago, Curia, Pedras Salgadas, Luso, Manteigas, Monchique e São Pedro Sul.

Além de um constante diálogo com Espanha, a partir das cidades fronteiriças, e da promoção de “autarquias-laboratório” (que têm plataformas de colaboração permanente com o ensino superior, empresas e centros tecnológicos), o Plano de Recuperação Económica e Social sugere a promoção da Madeira e dos Açores como “paraísos da biodiversidade ligados à diferenciação da oferta turística e à observação biológica”.

Para as duas áreas metropolitanas do país – Lisboa e Porto – propõe-se um projeto de investimento que as afirme como “macrorregiões competitivas globais”, com o desenvolvimento de soluções de cidades mais inteligentes e eficientes, também em interação com organismos científicos, o ensino superior e empresas.

Segundo o Governo, a versão final do plano será apresentada no final do mês, seguindo depois para discussão pública.




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