Apenas 5% das empresas em Portugal têm uma estratégia digital

Não basta ter uma página na Internet para se ser uma empresa digital, defende Nicolas Buisson, diretor da Michael Page para o Sul da Europa. E continua a ser o mais comum.

Ter uma página na Internet não basta para que uma empresa seja digital. “A digitalização ainda é um setor novo para muitas empresas. 10% ou talvez 5% das empresas em Portugal têm realmente uma estratégia digital. Os restantes 95% continuam a ser negócios tradicionais, sobretudo de Pequenas e Médias Empresas, onde existe uma menor disponibilidade de recursos humanos”, defende Nicolas Buisson, o diretor do Grupo Michael Page para oSul da Europa, que esteve em Lisboa e falou com o Diário Económico sobre o que esperar do mercado de emprego em Portugal nos próximos anos.
“Para ser digital, a empresa tem de perceber qual é o seu mercado, como analisar quem são os potenciais clientes e isso só será feito com digitalização, com conetividade, são precisos projetos de ‘big data'”, acrescenta Nicolas Buisson.
Daí que nas contas da Michael Page, este setor novo da digitalização vá crescer “provavelmente dois dígitos por ano, nos próximos 15 anos, ou seja, um crescimento de 15% ou 20% por ano”, sublinha o mesmo responsável.
Apesar das notícias recentes de um agravamento do mercado de trabalho em Portugal, com a taxa de desemprego a subir para os 13,8% em janeiro (notícia conhecida já depois desta entrevista), o responsável da consultora de recrutamento vê muitos bons sinais de que Portugal já iniciou a trajetória de recuperação a nível de emprego. “As perspetivas de recrutamento são muito boas em Portugal. Oano de 2014 foi bom para a Michael Page Portugal e janeiro e fevereiro de 2015 confirmaram essa tendência”, afirma, acrescentando:”Algumas empresas tiveram de fechar, mas as que sobreviveram reduziram custos, reorganizaram-se, estão mais eficientes, e agora começam a sentir que algo está a acontecer no mercado. E começam a recrutar”.
Com o mercado a mexer, Nicolas Buisson acredita que haverá “dois efeitos diretos, que não tardarão a fazer-se sentir: para atrair os melhores candidatos, as empresas têm de oferecer salários um pouco melhores; e para reterem os melhores talentos, que querem sair porque lhes oferecem melhores salários em empresas concorrentes, começam a ser feitas contra-propostas”.
Esta recuperação do mercado está a ser sentida pela Michael Page em todos os sectores. Farmácia, saúde, vendas, finanças, secretárias, advogados especialistas em Fiscalidade, mas também retalho, indústria e serviços, além do sector de Tecnologias de Informação, que tem estado sempre em alta, mesmo nos piores momentos da crise.

Recrutamento de quadros médios recupera mais depressa
A maioria das colocações que a multinacional está a fazer em Portugal são quadros médios, com grande destaque para os que dirigem equipas de vendas, que é uma das áreas mais firmes na recuperação, segundo esta consultora. “O mercado de ‘executive search’não é o primeiro a melhorar. Durante a crise os executivos de topo foram os primeiros a ser afastados. E agora as empresas já têm bons gestores de topo, trabalharam os custos, o mercado começa a melhorar e apostam nos cargos médios, em especial na área comercial, para desenvolver as vendas. Provavelmente, o mercado de topo melhorará só mais tarde”, explica Nicolas Buisson.
O responsável da Michael Page defende, por outro lado, que Portugal precisa de flexibilidade laboral para aumentar a capacidade de recrutamento. ” Penso que a situação em Portugal melhorou nos últimos meses, mas continuo a transmitir a mensagem que um país que seja mais flexível será aquele para onde as empresas quererão ir”, defende.
As pessoas têm de perceber, acrescenta ainda, que já não há empregos para a vida e, como tal, a empresa procura novos colaboradores quando, por exemplo, ganha um projeto. E se esse projeto for de um ano, quando acabar essas pessoas terão de sair. Se a empresa for obrigada por lei a manter os empregados, perde lucros e, eventualmente, a capacidade para voltar a recrutar. “Só com flexibilidade, as empresas se conseguirão reorganizar e adaptar ao mercado. Se se protegem demais os empregados, no fim esse mercado vira-se contra os próprios”, conclui o responsável, num recado aos governantes portugueses para que apostem mais na flexibilização.




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