Utilização de biotecnologia na agricultura pode substituir pesticidas

A introdução de biotecnologia na agricultura, baseada na utilização de Ácido Ribonucleico (RNA) por aplicação tópica de moléculas ou alteração genética das plantas, pode vir a substituir os pesticidas, disse o presidente do CiB, Pedro Fevereiro.

“Estas novas tecnologias são muito importantes porque, por exemplo, na Europa estão a ser questionados e colocados fora do mercado os métodos tradicionais de proteção das plantas utilizando químicos. Estas novas tecnologias que utilizam moléculas biológicas poderão vir a substituir estes químicos”, disse o presidente do Centro de Informação de Biotecnologia (CiB), Pedro Fevereiro, à Lusa.

De acordo com o responsável, estas moléculas biológicas, que estão a ser testadas, “são muito mais direcionadas para alvos específicos”, ao contrário dos pesticidas que “tendem a matar todos os insetos e até a afetar outros organismos como bactérias, fungos” e outras plantas.

“As papaias resistentes ao vírus da mancha circular são o exemplo prático da utilização desta tecnologia. O que se quis foi que as papaias expressassem um RNA de cadeia dupla que impedisse, de alguma forma, que se infiltrassem nas células as proteínas que constituem esse vírus, impedindo que se propagasse”, referiu o também professor auxiliar do departamento de biologia vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

A utilização destas tecnologias estende-se a vários tipos de culturas e pode, por exemplo, vir a ser utilizada no combate à bactéria ‘Xylella fastidiosa’, que afeta, por exemplo o olival, e cuja presença foi detetada em Portugal em janeiro.

“Eventualmente poderia vir também a ser aplicada, já que a ‘Xylella fastidiosa’ se aloja nos vasos condutores das plantas. Neste momento, não existem ensaios especificamente sobre a ‘Xylella’, mas esta [tecnologia] poderá ser uma solução para resolver este problema”, indicou Pedro Fevereiro.

O presidente do CiB afirmou ainda que, apesar das potencialidades da biotecnologia, esta tem vindo a ser questionada, sobretudo na Europa.

Apesar “dos pareceres positivos da Autoridade Europeia da Segurança Alimentar [EFSA, a sigla em inglês], as variedades [geneticamente modificadas] continuam a não ter aprovação”, embora a Europa “importe grãos e produtos alimentares resultantes desta tecnologia”.

Para o professor de biologia vegetal esta prática é “tão boa como qualquer outra” e “não introduz maiores riscos” que a utilização de variedades convencionais.

“Tem sido difícil fazer com que as decisões políticas sigam os pareceres técnicos das autoridades. Vejamos se agora, com uma nova composição do parlamento europeu, haverá uma alteração relativamente a este tipo de decisões”, vincou.

Pedro Fevereiro notou ainda que o valor da biotecnologia em Portugal é “relativamente baixo”, com apenas 8% a 10% dos campos de milho a utilizar esta tecnologia, sendo que, na Europa, apenas é permitida a produção de milho geneticamente modificado resistente à broca (inseto).

“Em Portugal, em locais onde existe uma praga, a utilização de milho geneticamente modificado permite ao agricultor, no fim da campanha, receber mais 250 euros por hectare cultivado, relativamente a um milho não geneticamente modificado”, concluiu.

O uso de RAN para proteger as plantas de pragas e doenças é o tema da terceira conferência anual da iPlanta, que se realiza, pela primeira vez, em Portugal entre hoje e sexta-feira.

O evento promovido pelo CiB e pelo Laboratório de Biotecnologia de Células Vegetais conta com a presença e intervenção de vários investigadores de diferentes países.

Fundado em 2002, o CiB é uma associação sem fins lucrativos que tem como principal objetivo promover a divulgação da biotecnologia em Portugal.




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