Património Mundial foi “mola” impulsionadora do enoturismo no Douro

A classificação do Douro como Património Mundial representou uma “grande mola” para o desenvolvimento do enoturismo na região, onde nas duas últimas décadas foram muitas as quintas históricas que abriram as portas ao turismo.

Há mais turistas a percorrer a região, que foi também palco para muitos investimentos em infraestruturas, como hotéis, e as quintas têm apostado no enoturismo abrindo as portas das propriedades históricas aos visitantes, um percurso que se intensificou nos últimos 20 anos que coincidem com a classificação do Alto Douro Vinhateiro (ADV) como Património Mundial da Humanidade.

O Douro foi inscrito na lista da UNESCO como paisagem cultural evolutiva e viva a 14 de dezembro de 2001.

“A classificação enquanto Património da Humanidade foi a grande mola para o desenvolvimento enoturístico da região”, afirmou à agência Lusa Laura Regueiro, da Quinta da Casa Amarela, em Lamego.

Esta foi uma das primeiras propriedades históricas durienses que se abriu ao enoturismo em 1998, quando a Rota do Vinho do Porto dava também os primeiros passos.

A rota não vingou e este ano o Douro aderiu à Rota dos Vinhos e do Enoturismo do Porto e Norte.

O que levou uma quinta direcionada para a viticultura a apostar no turismo? “Temos que nos adaptar aos tempos. O Douro estava a necessitar de novas âncoras que contribuíssem para o desenvolvimento sócio económico da região”, respondeu Laura Regueiro.

Na altura, a Quinta da Casa Amarela vendia o vinho às grandes casas exportadoras e tinha apenas um vinho do Porto na marca própria.

Laura Regueiro explicou que o enoturismo foi “uma nova forma” de divulgar a marca e o Douro.

“O enoturista não se limita só a gostar de vinho e a descobrir novos vinhos, exige mergulhar na cultura do vinho”, sublinhou.

A empresária quis ir além da prova e levar à descoberta do Douro e do trabalho árduo de quem constrói o território e faz os vinhos. Para o efeito criou o “jogo do vinho”, que inclui um rally paper pelas vinhas e que acaba com os visitantes a transportar um cesto antigo de vindima.

Em 1998, o perfil do enoturista era diferente do de hoje.

“Trabalho muito com grupos ingleses e americanos. Eu percebia que vinham para o Douro como sugestão imposta pelas agências de viagens e a partir de 2005/2006 a realidade mudou completamente (…), já não era a agência a traçar o programa, mas os grupos que o solicitavam e porquê? Porque o Douro foi projetado a nível mundial”, frisou.

O reconhecimento está feito, no entanto, Laura Regueiro alerta para a necessidade de “manter a qualidade dentro da região”.

Em 2020, a quinta requalificou um edifício antigo e criou quatro quartos para alojamento, este ano construiu uma piscina entre valados e está prevista a recuperação de mais um espaço para uma suíte no próximo ano.

Para Célia Ramos, vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), a classificação “fez desabrochar no Douro a dimensão da complementaridade do turismo e do enoturismo relativamente à viticultura”.

“Foi uma grande oportunidade”, salientou, referindo que, associada à produção, as quintas têm também uma “história para contar”.

A abertura das propriedades vitícolas ao enoturismo verificou-se em várias outras regiões do mundo e algumas não são Património Mundial. No Douro, a classificação foi um dos fatores que ajudou a potenciar o produto.

“Não há dúvida nenhuma que contribuiu”, afirmou à Lusa Tomás Roquette, da Quinta do Crasto.

A aposta no enoturismo tem uma década, mas já havia visitantes a passar pela propriedade histórica localizada em Sabrosa e que exporta para mais de 50 países.

“Gradualmente, ao longo dos últimos anos, fomos surpreendidos com uma procura por parte dos turistas e não era difícil para quem está cá e até nem tinha isso como core business ver que tinha aqui uma oportunidade”, salientou.

A equipa de enoturismo tem 10 pessoas que recebem cerca de 7.000 visitantes por ano, muitos dos quais se tornam, segundo Tomás Roquette, em “embaixadores da marca” quando regressam ao país de origem.

Ali fazem-se provas, vende-se vinho e passeia-se pelas vinhas. Os turistas podem chegar de carro, helicóptero, comboio ou barco e ser surpreendidos com uma viagem numa antiga carinha Bedford, que foi restaurada.

Tomás Roquette adiantou que pretende requalificar outros edifícios e criar também alojamento.

O percurso da Wine & Soul foi feito em simultâneo com o ADV. Criada há 20 anos, a empresa é um projeto dos enólogos Sandra Tavares e Jorge Serôdio. Ela veio de Lisboa e ele é do Douro.

A aposta do casal recaiu numa vinha muito velha em Vale de Mendiz, perto do Pinhão, em Alijó, onde colheram o primeiro vinho, que se tornou numa referência para a empresa.

Sandra Tavares referiu que a classificação do ADV ajudou a “criar regras para a preservação da paisagem e dos muros de xisto e na construção e deu alento e orgulho aos residentes por viverem num local único no mundo”.

Na sua opinião, atraiu também mais pessoas ao território e alavancou mais investimentos.

“Tudo isso vai ajudando a que tenhamos mais turismo, apesar de que eu acho que tem de ser feito de forma muito cautelosa porque o Douro não pode ir por um caminho de massas”, salientou.

A Wine & Soul seguiu também o caminho do enoturismo. Já recebia visitantes na adega, em Vale de Mendiz, mas em 2019 criou uma sala para provas, uma loja e três postos de trabalho.

“Ajuda a fidelizar o nosso consumidor. Tínhamos procura e não tínhamos estrutura para isso, mas também queríamos que as pessoas nos conhecessem e tivessem a oportunidade de experimentar e ver como os vinhos são criados e as vinhas de onde são provenientes. E isso faz toda a diferença”, referiu Sandra Tavares.

Muitos enoturistas são estrangeiros, mas a pandemia ajudou também os portugueses a descobrir ou redescobrir o Douro Patrónimo Mundial.


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