“A minha obra resulta do profundo amor por Portugal e pela literatura portuguesa, adquirido ainda adolescente, e que me levou a percorrer um duplo itinerário: por um lado, pela poesia contemporânea portuguesa, e, por outro, pela investigação da cultura tradicional da raia portuguesa e espanhola”, disse José Luis Puerto na cerimónia de entrega do prémio, realizada na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda.
O júri da 22.ª edição do prémio justificou a escolha pelo “conhecimento profundo da língua e da cultura portuguesas, evidentes nas suas traduções de poetas portugueses e na integração de elementos culturais ibéricos na sua poesia, no seu trabalho etnográfico e na sua investigação sobre a tradição oral”.
A trajetória do poeta e ensaísta espanhol “estabelece uma ponte entre o local e o universal, inspirada no percurso intelectual e cívico de Eduardo Lourenço e na mensagem de grandes escritores portugueses como Eugénio de Andrade, Nuno Júdice, Jorge de Sena e Miguel Torga, que traduziu com profunda sensibilidade e uma linguagem plenamente humana e emocional”, acrescentou ainda.
Qualidades de José Luis Puerto que estão “em consonância com o espírito do Prémio Eduardo Lourenço”, realçou também o júri.
À agência Lusa, o poeta e ensaísta considerou que a distinção é “o reconhecimento da intuição que tenho desde criança, de que Portugal e Espanha somos elos de uma mesma cadeia, de uma mesma realidade, que estamos interconectados, que as nossas pessoas têm os mesmos valores, a mesma cultura”.
“Os nossos grandes escritores, quando olharam para o outro lado da fronteira, entenderam-se, como, por exemplo, Miguel de Unamuno e Guerra Junqueiro”, disse.
Puerto disse que traduzir os grandes poetas portugueses da segunda metade do século XX foi “um prazer e um grande privilégio”.
“Houve um grande poeta que já morreu, que quis traduzir, Herberto Helder, e ele não deixou, porque não se deixava traduzir para espanhol. Mas [depois] a mim deixou e traduzi o seu primeiro livro, ‘Colher na Boca’, que o consagrou e que renovou a poesia portuguesa”, recordou.
José Luis Puerto revelou que o poeta português manteve depois uma “correspondência constante” consigo e que teve também “uma amizade e correspondência extraordinária” com os poetas José Bento, Fernando Echevarria e Eugénio de Andrade.
“É uma grande sorte e uma prenda que recebi de Portugal”, admitiu.
José Luís Puerto disse ter muitas cartas desses escritores que pretende doar “a uma instituição portuguesa, porque é um legado cultural, literário, poético, muito importante”. “E parece-me que tem que ficar em Portugal”, declarou.
Na sessão, após elogiar Eduardo Lourenço, o CEI, a literatura e poesia portuguesas, o galardoado afirmou que é preciso “inventar um alfabeto de ilusões para alcançarmos um mundo melhor”.
Sérgio Costa, presidente da Câmara da Guarda, considerou que, ao traduzir poetas e autores portugueses, José Luis Puerto “operou uma verdadeira imersão na alma portuguesa”.
“A atribuição do Prémio Eduardo Lourenço é a vitória da cultura ibérica, sem barreiras ou clivagens”.
Delfim Leão, vice-reitor da Universidade de Coimbra, afirmou que a atribuição do Prémio Eduardo Lourenço a José Luis Puerto é de “inteira justiça, intelectual e culturalmente”.
Já Marta Gutierrez Sastre, vice-reitora da Universidade de Salamanca, lembrou que o galardoado foi estudante e professor de Filologia Românica naquela instituição.
O elogio de José Luis Puerto coube à poetisa e professora da Universidade Pontifícia de Salamanca, Assunción Escribano, para quem, com a atribuição do Prémio Eduardo Lourenço ao poeta, tradutor, ensaísta e etnólogo espanhol, “se acendeu um pouco mais a luz do mundo”.
Instituído em 2004, o galardão, no valor de 7500 euros, distingue personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da cultura, cidadania e cooperação ibéricas.
O CEI, fundado em 2001, junta as Universidades de Coimbra e Salamanca, a Câmara da Guarda e o Instituto Politécnico local.




