“El Maño”, o Último Maletilla

Fotografia Alexandre Goncalves

Conrado Abad Gullón, tratado carinhosamente na orla Raiana por “El Maño”, era um homem ímpar, humilde, valente e intrépido que carregava, tal como uma Capeia Arraiana, uma Corrida de Touros ou um Touro, a poesia no olhar. Maño, figura da nossa Raia, era tranquilo e determinado, comungava deste nosso destino e amor. Resta a cada um de nós, até porque lhe devemos isso, perpetuar esse legado, pois, na realidade, Maño faz parte da nossa memória colectiva. Elevou o nome da nossa Raia, de Cidade Rodrigo e de Salamanca.
Transmitam aos mais novos que este homem é mais do que uma lenda, permanecerá vivo na memória de cada um de nós. Este território moldou-nos a todos, deu-nos tudo aquilo que fomos e tudo aquilo que somos. O Maño era um dos nossos!
A pele queimada do sol era o seu “traje de luces”, naquelas tardes quentes, memoráveis e cintilantes de Agosto. Haverá, seguramente, muitas histórias fascinantes para contar sobre a vida de Maño, espero, sinceramente, que haja alguém que as conheça e as publique em livro. O Maño marcou várias gerações! Guardo, guardamos, a imagem inquieta e, simultaneamente, serena do Toureiro Maño!
Dizem que, durante toda a vida, perseguiu o sonho de ser Toureiro. Maño tinha todos os predicados de um Toureiro, para muitos de nós foi um autêntico Toureiro. Tal como os verdadeiros Toureiros, também Maño se tornou imortal. Maño, ao longo da sua vida, fez jus ao poema “O Sonho”, de Sebastião da Gama.
Maño ensinou-nos, no âmago do confronto entre homem e animal, que devemos salientar mais a arte, do que propriamente a dimensão da luta. Maño, sempre lúcido e hábil, nunca abandonou a riqueza dos pormenores! Maño outorgou-nos inúmeras lições de vida e de poesia! Maño foi um embaixador do nosso território! Foi, talvez, o único octogenário que ousou enfrentar os Touros! Um fidedigno salva-vidas para muitos Raianos!
Não teve a glória numa arena, mas teve a glória nas Capeias e nos Encerros, ou seja, na nossa Alma Identitária. Foi, em diversas ocasiões, homenageado e fotografado ao lado de grandes figuras. Essas grandes figuras também tiveram o privilégio de ser fotografadas ao lado de uma grande figura. Maño, ou o Maestro Maño como muitos o apelidavam, criou incomensuráveis memórias! Maño, embora sem “traje de luces”, representava o sacrifício, a perseverança e o brilho! Maño bordava sempre algo belo nas praças da Raia!
Termino esta homenagem com os poemas “Alguns Toureiros” e “Lembrando Manolete”, de João Cabral de Melo Neto. Os poemas espelham alguns dos atributos de Conrado Abad Gullón, o “El Eterno Maletilla”. Que descanse em paz e que comecem as Capeias!

Alguns Toureiros
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.

“Lembrando Manolete”
Tourear, ou viver como expor-se;
expor a vida à louca foice
que se faz roçar pela faixa
estreita de vida, ofertada
ao touro; essa estreita cintura
que é onde o matador a sua
expõe ao touro, reduzindo
todo o seu corpo ao que é seu cinto,
e nesse cinto toda a vida
que expõe ao touro, oferecida
para que a rompa; com o frio
ar de quem não está sobre um fio.


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