Continuarei a gritar, a cantar, a declamar, a saltar e a correr. As mãos não ficarão quebradiças, por oferecerem constância a tantas pessoas. Que venha o cabelo grisalho, não o disfarçarei. Usarei a sabedoria e experiência para sorrir. Continuarei a participar num mundo de amor. Não desistirei de coisas diferentes. Identificarei erros antigos. Encararei, vaidoso, a velhice como um privilégio, uma dádiva. Declamarei poemas que iluminem a estrada. Escreverei, com risos, poemas sobre a velhice. Lerei, com gáudio, anedotas sobre a velhice. Quando os olhos lacrimejarem será seguramente da gripe ou da conjuntivite, jamais de tristeza. Continuarei a ouvir canções de Jorge Palma e de Sérgio Godinho. Tal como a mocidade, a velhice não é perfeita. A beleza das fases da vida está, precisamente, na imperfeição. Apreciarei a beleza dos momentos em silêncio. Terei tempo para ler as obras relevantes da humanidade. Continuarei a ter um coração que sente e entende. Não perderei a capacidade de sonhar, de acreditar, de imaginar ou de maravilhar. Emendarei caminhos. Recuperarei o sono perdido. Valorizarei o essencial. Continuarei a olhar para uma mulher bonita que passe por mim. Não perderei a curiosidade pela vida ou o apetite por pesquisar e inovar. Não serei uma árvore despida ou um pássaro sem asas. Não terei receio de errar. Encararei a mudança de braços abertos, pois é o reflexo da vida. Surpreenderei os fantasmas. Driblarei as sombras. Continuarei a ensinar e a aprender. Terei mais tempo para escrever cartas de amor, que, naturalmente, continuarão a ser ridículas.
A Velhice? Venha ela!

A Velhice? Venha ela!
Tenho um rosto sem rugas, alegre e luminoso. Tenho as mãos cheias de vigor, vivas e cálidas. Um dia, receberei a mudança, talvez a encontre no espelho. Quero morrer de velhice. Não quero morrer de indiferença. Continuarei a dizer: minha amada.





