PP/PR 12 – SUMO DO MONDEGO Enquadramento Geral – Desenvolve-se a partir do Vale de Rossim, pelo lado norte do planalto das Penhas Douradas na direção entre o Vale de Perdiz e o Taloeiro, para logo que entrar no caminho florestal – CF de acesso à Santinha, infletir para este até ao Sumo do Mondego […]

PP/PR 12 – SUMO DO MONDEGO

PR-LAC-04

Enquadramento Geral – Desenvolve-se a partir do Vale de Rossim, pelo lado norte do planalto das Penhas Douradas na direção entre o Vale de Perdiz e o Taloeiro, para logo que entrar no caminho florestal – CF de acesso à Santinha, infletir para este até ao Sumo do Mondego e regressar ao Vale do Rossim pelas Penhas Douradas.

Acesso rodoviário ao local de partida – Praticamente a meio caminho entre Gouveia e Manteigas da EN232, encontrará próximo da nascente do Mondego (Mondeguinho), uma cortada que por estrada municipal o levará ao Vale do Rossim e que circulando a barragem pelo lado norte lhe permite aceder também à Estância de Montanha das Penhas Douradas, de que resulta que o acesso ao local de partida pode ser também pelas Penhas Douradas.

Extensão aproximada – 13,0 km

Duração aproximada – 4 h

Grau de Dificuldade – Médio

Tipo de percurso – Circular com desníveis moderados

Apoios – Painel informativo no local de partida e balizamento com a marcação dos símbolos convencionais dos percursos pedestres.

Nota prévia – Se ainda não está habituado a caminhar, sugerimos- lhe que faça com a sua viatura a aproximação aos ponto de contacto com as vias rodoviárias e poderá escolher pequenos troços de caminhada que não duram mais de uma hora.

Percurso – Pela estrada municipal EM que o levará para norte até à EN232, constatará que a paisagem que observa é típica do modelado granítico de alteração não apresentando evidências da ação dos glaciares.

O processo de alteração dos granitos desenvolve-se por caulinização dos seus feldspatos, resultando a formação de novos minerais (minerais de argilas). Este processo é acompanhado de aumento de volume dos novos minerais que vão desagregar a rocha, originando o saibro de todos conhecido, denominado manto de alteração. Este processo progride através da rede de fraturação das rochas, sendo mais desenvolvido nas zonas em que a rocha se encontra mais fraturada, resultando numa superfície irregular da base do manto de alteração. Podem-se encontrar diferentes tipologias de formas graníticas desde os nubbins, tors, bolas e caos de bolas, até às formas menores como as gnammas (ver Guia Geológico e Geomorfológico do PNSE pgs.31 e seguintes). A existência de blocos graníticos de dimensão variada in situ, testemunha a inexistência de glaciares neste local.

Perfil de Alteração em rochas graníticas. Fonte: Ferreria e Vieira, 1999. (LAC)(AC)

Perfil de Alteração em rochas graníticas. Fonte: Ferreria e Vieira, 1999. (LAC)(AC)

Bolas graníticas resultantes da destruição dos tors. Fonte: Ferreira e Vieira, 1999. (LAC)(AC)

Bolas graníticas resultantes da destruição dos tors. Fonte: Ferreira e Vieira, 1999. (LAC)(AC)

Ao alcançar a EN232, vire à sua esquerda na direção de Gouveia e a menos de 1 km percorrido na estrada nacional, corte à direita para o nó de caminhos florestais que vislumbrará e tome o da direita para descer ao leito do Mondego. Ignore um, ainda mais à direita que corre por baixo da linha de alta tensão e que iria dar ao mesmo sítio, mas mais longo. Percorridos escassos 2 km, encontrará as ruínas de casa de Guarda Florestal e logo 300 m à frente deixe a estrada florestal e entre à direita a corta mato, caso o desbaste deste que periodicamente é feito já tenha recuperado. Caminhe até alcançar o leito do Mondego que não é uma primeira e quase insignificante linha de água que terá de ultrapassar. Chegado ao leito do Mondego e após subir aos blocos graníticos que se interpõem, constatará que em escassos metros o leito do rio após interessante cascata se sumirá e deixa de se ver. Chegou ao ensaio geral do Sumo do Mondego que se quiser pode apelidar de Suminho. Pela luminosidade do local e enquadramento paisagístico, com cascata a montante e mini “praia fluvial” a jusante, é muito mais apelativo do que o próprio Sumo do Mondego. Para alcançar este monumento geológico, terá de percorrer ainda mais cerca de 250 mts. para jusante, por trilho de mato geralmente desbastado, onde constatará que o leito do rio e o próprio vale aí muito encaixado e estreito se encontram totalmente bloqueados por um enorme amontoado de blocos de granito.

Estes amontoados de blocos graníticos correspondem a caos de blocos que ocorrem nos fundos das vertentes de acentuado declive, de onde rolam por gravidade, provocando a colmatação das linhas de água. Devido à sua grande dimensão estes blocos quando aglomerados, deixam entre si espaços vazios que permitem a circulação das águas do rio que por vezes sob eles corre em grandes caudais. O rio volta ao seu percurso normal a céu aberto quando o amontoado de blocos desaparece do seu leito.

Onde as águas são mais profundas e calmas, os tufos de Carex, com finos mas resistentes caules e pequenos cachos de flores violeta, formam pequenas ilhas e ajudam a sedimentar as margens, de onde surgem matas de salgueiros, Salix atrocinera e Salix salvifolia, de cor cinzenta. Para jusante, as margens enchem-se de agrião Rorippa nasturtium-aquaticum, com pequenas flores brancas e de verónicas, Veronica anagallis- aquatica. As libélulas, como a libelinha-azul-pequena, Coenagrion sp. e Cordulegaster boltonii quando povoam estas águas, são a prova da sua pureza e da ausência de poluição, mas também as suas primeira vítimas. No Mondego vivem e pescam-se a truta comum, Salmo trutta fario, a truta-arco-íris, Oncorhynchus mykiss, a boga comum, Chondrostoma polylepis polylepis, a enguia, Anguilla anguilla.

A diversidade e abundância de cogumelos existentes nos povoamentos florestais situados na cabeceira do Mondego, é mais exuberante no outono. Muitas das espécies que aí ocorrem são comestíveis e, se colhidas de uma forma responsável, poderão constituir um óptimo motivo para a realização deste itinerário.

Para encontrar o local de passagem para a outra margem do Mondego, que na zona é de facto uma dificuldade face à densidade da vegetação ribeirinha, recomenda-se que volte ao caminho florestal e percorra-o em sentido contrário durante cerca de 1,1 km. Encontrará ramal à esquerda por onde pode empreender, por caminhos florestais recentes que não constam da carta turística do PNSE, a subida de cerca de 1,5 km, até à EN232 no cruzamento para as Penhas Douradas. O único destes CF que está indicado na carta poderá ser percorrido em cerca de 1,0 km, mas quando alcançado o troço de maior inclinação quando empreende a subida para a EN232, ignore-o e continue em frente para Leste. Continuará a passar por frondosos bosques de folhosas nos restantes 0,5 km até alcançar no final do caminho uma plataforma de entroncamento de mais dois caminhos florestais sobranceira ao cruzamento das Penhas Douradas na EN232. Aproveite para neste local bastante ventoso e pouco húmido, apreciar o tipo não muito frequente de matos que aqui ocorrem, chamados de caldoneirais. Estes são espécies arbustivas espinhosas, com formas arredondadas e densamente ramificadas que ocorrem normalmente em regiões áridas do Médio Oriente e Norte de África. Na Serra da Estrela ocorrem em solos rochosos secos e sujeitos a grandes amplitudes térmicas e ventos fortes, como é o caso desta vertente do Mondego às Penhas Douradas. Ocorrem dois tipos, um no andar intermédio o Echinospartum ibericum subsp. ibericum e o outro, subsp. pulviniformis, no andar superior, de menor porte. Aqui o andar é intermédio e é pois o primeiro que aparece.

Penhas Douradas. Outono. (LAC)

Penhas Douradas. Outono. (LAC)

Chegado ao cruzamento das Penhas Douradas procure um pouco mais abaixo o ramal do Observatório Meteorológico e percorra nele cerca de 0,7 km no meio de frondoso bosque. Este observatório foi construído em 1882 e foi através dele que o País passou a ter informação sobre um clima de montanha.

Quando começar a ver a vedação do observatório, registe à sua direita a existência de um caminho pedonal montante, através da floresta de pseudotsugas, com notáveis exemplares para esta altitude. É por tal caminho que vai ter de subir até à Casa da Fraga. Esta fica no terminus e confluência do dito caminho com a EN338-1 que serve as Penhas Douradas. Esta estância de montanha, começou exatamente aqui na Casa da Fraga, onde um amontoado de blocos de granito foi engenhosamente aproveitado para anexos de uma casa construída em 1882 pelo santareno Alfredo César Henriques, o primeiro tísico a ser tratado com os bons ares da altitude (1.475 m). Por aqui se curou durante dois anos por aconselhamento do médico Sousa Martins e terá estado na origem das restantes construções que encontrará nas redondezas e que passaram a constituir a estância de montanha “Penhas Douradas”. A origem do nome poderá encontrá-la em Batista, José David Lucas, “Toponímia do Concelho de Manteigas” (1994), onde o autor refere que “pena” era uma das designações em português para fraga ou rocha que foi substituída pela sua variante castelhana “penha”. Aproveite para fazer o reconhecimento das dezenas de casas dispersas, quase todas com origem nas primeiras décadas do século passado e destinadas na época à cura da tuberculose. Uma delas que ainda se mantém conservada foi mandada construir por Afonso Costa.

Casa da Fraga. (LAC)

Casa da Fraga. (LAC)

Alguns conselhos: i – não perca o miradouro do Fragão do Corvo, com uma soberba panorâmica sobre Manteigas; ii – ensaie uma escapadela até ao Vale das Éguas que em tempo foi campo de ensaios de melhoramento de pastagens de altitude, de que sobrou bonito bosquete de bétulas. Antes e no caminho para lá, já depois de ter deixado a estrada alcatroada, encontrará à sua esquerda caminho de acesso (atrás de corte meia escondida por enorme pedra) ao Seixo Branco, afloramento de quartzo róseo que ocorre no granito pegmatítico. A cor rosada é conferida pela presença de titânio na rede cristalina do quartzo.

Fragão do Corvo, vista do Vale do Zêzere. Inverno. (LAC)

Fragão do Corvo, vista do Vale do Zêzere. Inverno. (LAC)

Uma vez no Vale das Éguas procure em redor os melhores ângulos para fixar as mais diversas rochas antropomórficas em granito e fixe quase no horizonte para NE, uma das mais curiosas: a Cabeça do Negro ou Poio do Negro que daqui apenas poderá ver de costas ao lado do posto de vigia de fogos florestais. Fixe-a mesmo assim, pois é nessa direção que se deve dirigir num fácil corta mato até à estrada que o levará de volta ao Vale do Rossim. Aí chegado já poderá ver de perfil a singular cabeça.

Lagoa do Vale do Rossim. Primavera. (PM)

Lagoa do Vale do Rossim. Primavera. (PM)

Já muito perto do local de partida, no regresso ao Vale do Rossim, quando aí chegar ao fim da tarde, o Sol poente ao iluminar as fragas sobranceiras à lagoa do lado sul, emprestalhes o tom dourado que deu o nome a todo este planalto. A panorâmica que daí se desfruta sobre tais fragas e das que lhe ficam em redor, é das melhores para observar exemplos do modelado granítico, com abundantes exemplares idênticos aos descritos no início deste percurso.