Já chegou a rede social para os agricultores

Desde dezembro de 2015 que os agricultores já têm disponível uma rede social destinada ao seu setor.Chama-se Blue Number e trata-se de uma plataforma de internet gratuita para avaliar e apresentar o seu produto e entrar em contacto com potenciais clientes.

A iniciativa é do Programa de Agricultura Integrada e Sustentável das Nações Unidas e outras agências que promovem as cadeias de alimentação em todo o mundo.

O objetivo é que os agricultores e proprietários de pequenas empresas agrícolas acedam a elas mais facilmente.

A maneira de fazer isso é através de uma identificação única para qualquer pessoa ou empresa que contribui para esta cadeia. «Vamos dar a todos que solicitam um número de identificação», refere numa entrevista em Nova Iorque, Arantxa González, diretora executiva do Centro de Comércio Internacional (ITC), uma das organizações envolvidas na criação desta plataforma.

«Todos os agricultores podem ser conetados num sistema, uma super rede social que vai compartilhar informações como o nome do produtor, a localização da exploração, os produtos ou serviços produzidos, se os pode exportar, fotos, etc.», salienta.

A plataforma surgiu em dezembro de 2015 e os primeiros países que a usaram foram a Malásia e Vietname, onde foi usada por 67 mil agricultores.

O método de operação é o seguinte: os produtores agrícolas e pecuários registam-se e inserem as informações que considerem relevantes, sendo que podem escolher com quem as partilhar. A partir daí começam a interagir.

«Mas não é só o suficiente para produzir; a matéria prima devem ser de qualidade e quanto melhor for, maior será o valor acrescentado do produto», diz González.

Por esta razão, uma das ferramentas que estará disponível na plataforma servirá para permitir que os membros a consultar as certificações de qualidade dos seus produtos. Esta é uma comparação de mais de 180 padrões de sustentabilidade e códigos de conduta aplicáveis ao setor agrícola, que servem para certificar que os seus titulares estão a cumprir um conjunto de princípios éticos que vão desde a garantia de qualidade, à denominação de origem, e às regras de comércio justo e respeito pelos direitos dos trabalhadores.

Depois de concluído todo o processo, será possível para os agricultores ganhar maior visibilidade na cadeia alimentar e reunir todas as partes envolvidas na produção de alimentos.

Em qualquer caso, o tamanho importa; a única exigência é que a empresa tenha matéria prima para o comércio, que não é apenas de subsistência.

A diretora-executiva do ITC dá um exemplo: «no Brasil, conheci há algumas semanas uma rapariga jovem que tem uma empresa de transformação de cacau em chocolate de qualidade. É fornecida por muitos pequenos produtores, não é uma questão de volume. Pode ser muito pequena, mas será uma cadeia de valor. Basta que vendam alguma coisa e queiram conetar-se a um mercado», afirma.

Também será possível conhecer a rastreabilidade dos produtos, uma informação obrigatória para o consumidor ou para os responsáveis de grandes empresas.

«Se é uma multinacional como a Unilever ou a Nestlé, um dos seus maiores problemas é ter certeza de que conhece todos os seus fornecedores e, se houver um problema, saber identifica-lo sem quebrar toda a cadeia», diz González.

Quando a rede Blue Number funcionar a 100%, também é possível que um comprador anónimo de uma cidade europeia saiba, por exemplo, de onde vem a laranja que está a adquirir.

«Um dos grandes problemas do capitalismo de mercado é o desequilíbrio entre o consumidor e o produtor. O consumidor não está ciente do seu poder e não o usa», critica a diretora-executiva do ITC. «Eu, como consumidor, informo-me das frutas que compro e não escolho uma qualquer».

Não se vai acabar com a fome com um Blue Number, mas, de acordo com Gonzalez, a tecnologia em si é uma boa maneira de começar a resolver um dos problemas que impedem que essa utopia se transforme em realidade: trata-se de dar voz a milhões de pessoas que serão fundamentais na criação de uma ponte mais eficaz entre oferta e procura.

«Entre o que chamamos de pequenos agricultores existem taxas muito elevadas de pobreza; é uma parte da população com a qual temos de nos preocupar um pouco mais», conclui.




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