Castelo Branco e Guarda são zonas de risco para tráfico de pessoas

Uma vez que as próprias vítimas não contactam as autoridades, estima-se que haja muitos casos ainda desconhecidos.

A Rede Regional do Centro de Apoio e Proteção às Vítimas de Tráfico humano registou 16 vítimas este ano na região Centro, depois de terem sido sinalizadas 34 pessoas. Os distritos de Castelo Branco e Guarda são as maiores preocupações da rede.

“Castelo Branco e Guarda serão os distritos mais propensos e calcula-se que haja mais vítimas nessas zonas”, explica Vera Carnapete, a coordenadora da equipa multidisciplinar especializada da região Centro, referindo ainda que este ano a maior parte das 34 vítimas sinalizadas chegam dos distritos da Guarda, Viseu e Leiria.

O número deste ano impressiona se se comparar com o total das situações sinalizadas nos cinco anos anteriores, entre o final de 2012 e dezembro de 2017: 71 processos, com 44 presumíveis vítimas de tráfico.

Segundo Vera Carnapete, “há situações em que existe uma sinalização, mas em que, depois, não se trata de tráfico”, estando, porém, relacionadas com outros crimes e formas de exploração ou violência, como auxílio à imigração ilegal, exploração laboral sem tráfico, lenocínio ou violência doméstica.

O número de sinalizações está a aumentar porque há uma maior preocupação com o tema. Técnicos dos municípios, assistentes sociais, médicos ou forças policiais estão mais alerta. “Não são as próprias vítimas que nos ligam para o número de emergência. Isso aconteceu-nos apenas duas vezes”, aclarou, Vera Carnapete.

Normalmente, são técnicos ou polícias que sinalizam os casos: “Por exemplo, um médico, numa urgência ou num centro de saúde, pode aperceber-se de uma situação em que uma mulher, acompanhada por alguém, não olha para o médico, não responde a nenhuma questão e o homem que a acompanha faz questão de estar sempre presente e responder por ela. Por si só, isto não quer dizer nada, mas há todo um conjunto de sinais que faz com que este profissional fique alerta”, vincou Vera Carnapete.

Contudo, uma vez que as próprias vítimas não contactam as autoridades, estima-se que haja muitos casos ainda desconhecidos.

Quem quiser denunciar uma situação de tráfico de seres humanos, pode ligar para a EME do Centro (918654104), com serviço de atendimento 24 horas por dia.

 

O perfil da vítima de tráfico humano

Os homens portugueses vítimas de tráfico são mais velhos e mais frágeis e normalmente explorados em quintas isoladas do interior do país, onde vivem “em prisões sem muros” durante largos anos, refere o coordenador do centro de acolhimento de Coimbra.

No único Centro de Acolhimento e Proteção (CAP) para vítimas de tráfico de seres humanos do sexo masculino, 42% dos acolhidos desde maio de 2013 (quando começou a funcionar) são portugueses, sendo normalmente pessoas “mais fragilizadas e com mais vulnerabilidades”, diz Marco Carvalho, coordenador deste espaço gerido pela Saúde em Portugal.

No país, há ainda centros de acolhimento para mulheres e crianças.

A vítima portuguesa é, em média, mais velha do que a vítima estrangeira e necessita de mais tempo de permanência dentro do CAP.

“As vítimas portuguesas foram exploradas durante muito mais tempo – nove anos, 15 anos ou até 25 anos. São pessoas, normalmente, com problemas a nível psiquiátrico e têm uma maior vulnerabilidade para cair nestes casos de exploração”, frisou o coordenador.

Em muitos casos, conta, as vítimas eram exploradas em zonas rurais, no interior do país, normalmente para trabalhar em quintas isoladas ou na pastorícia.

A esmagadora maioria dos casos de homens refere-se a vítimas de tráfico para exploração laboral, havendo em alguns casos situações de escravidão, em que a pessoa não chega a receber qualquer remuneração e é vista apenas “como um instrumento de trabalho”.

Marco Carvalho recordou o caso de um pastor, numa quinta, que “durante nove anos não recebeu qualquer remuneração, era tratado como um animal e ainda lhe retiravam a pensão de invalidez”.

Uma constante em todos os processos de homens portugueses que passaram pelo centro que coordena é a dependência do álcool.

“Cem por cento dos homens portugueses que aqui são acolhidos têm problemas de consumo de álcool. É uma forma de o explorador conseguir manter ali a vítima. É normal a vítima dizer que o patrão lhe dava comida, um sítio para dormir e um garrafão de vinho. A comida são restos, a dormida é uma barraca, o vinho é uma trela”, salientou.

Além de aproveitar a dependência do álcool, o explorador recorre muitas vezes a agressões e ameaças.

“É normal as vítimas chegarem subnutridas e com sinais de agressões”, acrescentou.

A maioria das vítimas também não tem qualquer suporte familiar – já estavam sozinhas antes de serem exploradas e é recorrente terem passado por uma situação de sem-abrigo.

Quando são acolhidos, os homens mostram sinais de stress pós-traumático, bem como terrores noturnos, sendo que o processo de integração pode demorar vários anos: “Aqui, não há prazo de saída. O tempo de intervenção varia e o importante é sair capacitado para se reintegrar na sociedade”.

Sobre a dificuldade desse processo, Marco Carvalho apontou para o caso de uma vítima portuguesa. Durante cerca de seis anos, “a única convivência que teve foi com as cabras e ovelhas e com o explorador”. “Quando entram na casa de acolhimento, às vezes, é preciso educá-los desde o zero: como utilizar uma casa de banho, como utilizar uma cozinha, como estar em comunidade. É um trabalho que demora muito tempo”, vincou.




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