Algumas das vidas que se perderam no combate a incêndios em Portugal resultaram da surpresa resultante deste fenómeno.

O vento nos incêndios em Portugal, como em qualquer parte do mundo, tem muita influência no seu comportamento. Vamos abordar alguns aspectos meteorológicos muito particulares no nosso território, para saber quando o tornam mais perigoso.

A maioria dos grandes incêndios em Portugal dá-se com temperaturas elevadas e variações bruscas de direcção e intensidade do vento. A situação meteorológica mais propicia à ocorrência dessas condições é a que vivemos neste inicio de Agosto. Baixa pressão relativa de origem térmica a Sul e crista do anticiclone a Norte.

Aparentemente esta situação tem ventos fracos resultantes da circulação geral, mas a nossa proximidade ao mar e o calor exagerado desenvolvem alguns fenómenos de ventos variáveis e por vezes fortes que agravam muito o risco de ocorrência de incêndios e a sua propagação.

As brisas são potenciadas pelas temperaturas altas. Sobem as montanhas durante o dia (ventos anabáticos) e descem do topo das montanhas para os vales durante a noite (ventos catabáticos). Durante a manhã sobem com mais intensidade as encostas orientadas a Leste e à tarde as encostas orientadas a Oeste.

No caso de incêndio fazem com que ele progrida montanha acima muito rapidamente durante o dia, podendo ter momentos de aceleração que se tornam bastante perigosos. Durante a noite o incêndio tende a descer em direcção aos vales e normalmente perde força. Devido à inversão térmica nocturna o fumo também desce para os vales e cria muitos problemas de visibilidade.

A brisa marítima sopra do mar para terra durante o dia. Como se trata de ar mais fresco e mais húmido baixa o risco de incêndio no litoral. À noite a brisa de terra sopra em direcção ao mar levando ar quente e seco para as zonas costeiras. Se houver incêndios complica o seu combate durante a noite.

O fenómeno de ventos que considero mais perigoso para os incêndios em Portugal é pouco estudado pela meteorologia geral mas bem conhecido dos praticantes de voo livre, que é o meu caso. Trata-se da frente fria de brisa marítima.

Nestes dias de pouco vento, muito calor e grandes ascendentes de convecção o ar mais fresco e húmido vindo do mar tende a penetrar terra dentro muito para além da comum brisa marítima. Forma-se assim uma frente fria que desencadeia ventos mais fortes acompanhados de mudança brusca de direcção.

É muito enganadora pois escassos minutos antes de chegar a um determinado local o vento sopra de Leste ou Nordeste com relativa calma. A chegada da cunha de ar fresco potencia a ascendência do ar quente acumulado. De uma forma brusca o vento roda para Oeste ou Noroeste com uma intensidade muito significativa. Depois continua a soprar com muitas rajadas fortes até ao anoitecer e às vezes continua nas primeiras horas da noite.

Algumas das vidas que se perderam no combate a incêndios em Portugal resultaram da surpresa resultante deste fenómeno.

Eu próprio, conhecedor deste fenómeno há mais de 25 anos, tive um acidente de parapente em 2013. O vento de Nordeste de 10 km/h transformou-se em 40 km/h de Oeste na região de Castelo Branco, depois de voar mais de 100 km tive que aterrar com muito vento e fui arrastado o que me provocou algumas lesões.

Nas tardes dos próximos dias têm que estar atentos, pois a probabilidade de formação da frente fria de brisa marítima é muito elevada. Pode-se ir monitorizando o seu avanço terra dentro através dos dados das muitas estações meteorológicas.

Para evitar os seus efeitos nefastos, o melhor é evitar a ignição de incêndios ou apagá-los nos primeiros minutos. Se não houver incêndios grandes não há problema nenhum, o vento até nos ajuda a refrescar.