Dois poemas para assinalar o Dia Mundial da Poesia: Órfão e Mistério.

Órfão

Partiram de cansaço

Eram o meu único e fidedigno regaço

O meu resguardo, amparo e sustentáculo

A minha razão mais vigorosa e o caminho sem obstáculo.

 

Ofereciam-me constantemente palavras açucaradas e telas de tranquilidade

Desenvolturas corajosas e carinhosas sempre com tanta cumplicidade

Conheço agora o sentimento de um desamparado

A expectativa no vindoiro sofreu uma forte sanção agora que estou isolado.

 

Eram o meu escudo mágico, bem como a matutina e inegável serenidade

O céu, o sol, o sorriso, a erudição e a claridade

O início, o meio e a conclusão

A mais melodiosa e atenciosa canção.

 

Inflamaram-se as tormentas, assassinaram-se as alegrias e rasgou-se o poema personalizado

O oceano dos meus olhos também tem o sabor salinizado

Numa marcha pardacenta e singular dilaceraram-me o desejo e a ambição

Agora sou um beijo imperfeito e o berço da inibição.

 

As palavras não dançam numa casa desabitada

Sinto o Universo longe de mim e respiro numa superfície agastada

Sou um marinheiro enfraquecido e perdido num porto longínquo e anónimo

Sinto-me cinzento como o asfalto, desalentado como uma praça vazia, um simples limo.

 

Sinto-me estátua de derme e de anseios

Luz, cor de fel, com imensos devaneios

Ventos que trazem nuvens de água e de tormento

Estrela sem fulgor na palma do firmamento.

 

 

 

Mistério

Nunca abandones o teu mistério e alimenta-o todos os dias

Quando estivermos afadigados é certamente ele que nos irá salvar

Como se fosse um filho dá-lhe amor, carinho e melodias

Escuta este teu compassado amigo que conhece bem a palavra amar.

 

Conserva a minha alma acordada e um sorriso nos lábios

Esse é o teu bem mais valioso que nos une e não nos afasta

Acordo todas as manhãs com repercussões desses mistérios sábios

Acalenta o meu mundo e faz de mim um verdadeiro entusiasta.

 

Essa substância encoberta que me faz viajar e divagar

Proteges com o cadeado dos sonhos enigmas que a silhueta e o espírito merecem

As representações que no teu corpo eu tacteava eram de verdade e de embriagar

Não me ouso conjecturar para onde te encaminhas quando sais conduzida pelos sonhos e mistérios que te enobrecem.

 

Os mistérios que arremessas para o jogo da sedução

As reminiscências que acondicionas por harmonia

Não quero marchar pelos teus pés, apesar de essa condição não constituir uma infracção

Quero cruzar todos os espaços e caminhos contigo, embora alguns fiquem sem se ver e com menos sintonia.