Último entalhador de Gouveia dedica-se à arte apesar de o negócio ter diminuído com a crise

O entalhador António Feiteiro dedica-se há 65 anos à arte de talhar a madeira, apesar de atualmente o trabalho ser pouco e de se queixar da crise e da concorrência dos produtos chineses.

António Feiteiro, de 79 anos, residente em Aldeias, no concelho de Gouveia, na Serra da Estrela, no distrito da Guarda, é um dos últimos entalhadores da região.

“No concelho de Gouveia não há cá outro entalhador. Na Guarda, não sei se há, mas é provável que sim. Agora, aqui no concelho de Gouveia, não. Nem [no concelho] de Seia, não há aqui nada, portanto, não conheço cá nenhum”, esclarece.

O entalhador que sempre trabalhou a madeira, pois exerce a profissão desde os 14 anos, disse à agência Lusa que a venda de peças em talha diminuiu nos últimos anos.

“Até uma certa altura havia muito que fazer e chegava a estar até à meia-noite a trabalhar, sozinho”, lembra, referindo que há cerca de 12 anos “veio a crise” e o negócio diminuiu consideravelmente, ao ponto de deixar de fazer feiras de artesanato.

António Feiteiro, que aprendeu a arte numa oficina em Gouveia, onde esteve até 1976, altura em que se estabeleceu por conta própria, também se queixa da concorrência dos produtos chineses e das lojas que “têm tudo de borla”.

O entalhador faz uma grande variedade de peças em madeira de castanho e de mogno a partir de “ideias antigas” ou ao gosto do cliente.

Da sua oficina saem tocheiros e suportes de candeeiros de pé alto para velas ou lâmpadas elétricas (parecidos com os das igrejas, sendo que o mais pequeno custa 36 euros e o maior 80 euros), mísulas ou peanhas, credências, molduras de espelhos, cadeiras, mesas com motivos específicos (caça, florais, etc.), entre muitas outras peças de decoração e mobiliário em talha.

O homem admite que os seus artigos são caros, mas ressalva que são produzidos manualmente e “levam muito tempo a fazer”.

A título de exemplo, referiu que uma mísula com uma pomba, que leva “dia e meio, mais ou menos”, a fazer, vende-a por 80 euros e o cliente leva para casa um artigo que é único: “Eu, pelo menos, nunca vi em lado nenhum. As peças que eu faço ainda não as vi feitas em lado nenhum. Tenho feito pelo desenho que tenho e pronto, ainda nunca vi nada igual”.

Atualmente, o entalhador só faz peças por encomenda, para evitar a sua acumulação, pois na garagem onde as armazena contabilizam-se, entre outros artigos em talha, mais de meia centena de pés de candeeiros que aguardam por comprador.

António Feiteiro, que faz as peças em madeira desde o desenho ao acabamento final, também já executou, há cerca de 20 anos, altares em talha para capelas nas localidades de Sameice (Seia) e Maceira (Fornos de Algodres).

O homem de 79 anos lamenta que a sua profissão esteja em vias de desaparecer em Gouveia e na região da Serra da Estrela, pois gostava que tivesse seguidores.

Apesar de reconhecer que os mais novos “querem é dinheiro e computadores”, e não se interessam pelos ofícios tradicionais, está disponível para ensinar a arte através de um Centro de Emprego, de uma Câmara Municipal ou de uma escola da região.