Almaraz – O barril de pólvora?

(este artigo será mais um contributo a juntar ao programa de hoje à noite, 16/01/2017, da RTP, Prós e Contras)

Em 2006, fiz um trabalho para uma disciplina do curso de Engenharia do Ambiente sobre os pontos positivos e negativos da energia nuclear em Portugal. Nessa altura, que não foi assim há muitos anos, tinha uma imagem que o nosso país teria mais pontos positivos do que negativos na implementação de uma central nuclear. Pensava eu que o nosso país teria; 1) uma energia mais barata face ao “ouro negro”, 2) aumentaríamos a competitividade e por consequência 3) as contas públicas do país, sem nunca ter olhado em detalhe, nessa altura, para os muitos pontos negativos existentes, como é exemplo disso o risco de acidente por falha humana e/ou técnica.

Felizmente que o ser humano está em constante evolução e, dois anos depois, a tomar um cafezinho, tive a feliz ideia de trocar impressões com um professor de curso sobre o assunto, o que fez alterar a minha visão e acicatar a minha curiosidade sobre o tema.

Hoje, mais maduro e com as ideias mais arrumadinhas, congratulo-me que as políticas energéticas que Portugal traçou nos últimos anos tenham ido ao encontro da energia renovável ao invés da energia nuclear. Admito, de uma forma intuitiva, que a estratégia seguida para as energias limpas – eólica, hídrica e solar – tenham sido um pouco mais dispendiosas para o erário público mas, com toda a certeza, prefiro pagar impostos para a produção de uma energia limpa do que contribuir para o financiamento de um barril de pólvora.

Lembram-se do desastre catastrófico ocorrido Chernobil – abril/1986 – e em Fukushima – março/2011? É aqui que entra a famosa e triste história da central de Almaraz tão falada nos últimos dias.

Almaraz é uma central nuclear em Cáceres (Espanha) que fica situada junto ao Rio Tejo e faz fronteira com os distritos de Castelo Branco e Portalegre. Foi construída em 1972 e entrou em funcionamento no início de 1981. Há 36 anos.

É de conhecimento público, depois de uma fiscalização do Conselho de Segurança Nuclear, que passados estes anos todos as instalações da central nuclear estão completamente antiquadas e com graves problemas de segurança, semelhantes aos ocorridos na Central de Fukushima.

Nos últimos anos ocorreram mais de 55 incidentes quer por falha técnica quer por falha humana, tais como; 1) corrosões e ruturas das tubagens, 2) fugas gasosas e de água, 3) paragens forçadas ou 4) falhas nos sistemas de refrigeração dos reatores. Adicionando a estes pontos o facto da potência instalada na central ser igual a 2.093 MW, ou seja, uma bagatela comparada com a produção elétrica total de Espanha – 100.000 MW -, estão reunidas as razões suficientes para o encerramento da arcaica central.

Como verificado, para além de não ser fiável e estar obsoleta, cada ano que passa o risco de catástrofe para Portugal e Espanha aumenta logo, estou completamente em desacordo com o alargamento até 8 de junho de 2020 da licença por parte das entidades Espanholas.

Para além de não conseguirem constatar os factos anteriores, a vizinha Espanha, à semelhança de outros países da Europa, olha para Portugal de uma maneira rude e autoritária tendo-se esquecido que para a construção de uma aterro para este tipo de resíduos, as leis comunitárias, obrigam à existência de uma avaliação de impactos ambientais transfronteiriços!

Sei que os “nuestros hermanos” querem ver os resíduos nucleares o mais longe possível de Madrid. Nós, aqui em Portugal, não queremos um rio Tejo, que entra pela linda localidade de Vila Velha de Ródão e desagua em Lisboa, inundado de radiações provocando uma catástrofe nacional e geracional, semelhante a Chernobil e Fukushima.

Face ao exposto, apelo ao Sr.º Ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, que reúna todos os esforços e diligências necessárias junto das entidades competentes para parar este barril de pólvora e, continuar a acautelar o interesse nacional perante todas as fontes de poluição, sejam eles hídricas ou atmosféricas. Desejo com isto que, sejamos preventivos neste caso como fomos em 1986 quando eles, os vizinhos, nos ameaçaram que enterrariam os resíduos nucleares junto ao Douro internacional.

Desafio: A Comunidade Europeia deveria criar, com urgência, 1) uma regulamentação para calendarizar o fecho das centrais nucleares e 2) programas de sensibilização na sociedade intitulada “Sejamos ativos hoje para não sermos reativos amanhã”. Pois, em meu entendimento, é sempre preferível colocar em primeiro lugar a segurança e a saúde pública do que andarmos a jogar à roleta russa.

Acredito que a Comissão Europeia irá atuar em conformidade com as Diretivas Europeias definidas. Se isso não acontecer?

Bem, se isso não acontecer e for católico, reze, reze muito. Se tiver outra religião, reze, reze muito.

Este artigo é da exclusiva responsabilidade do autor.